O mercado de estágio no Direito brasileiro tem se tornado cada vez mais competitivo e exigente, refletindo a realidade de um setor que exige não apenas conhecimento acadêmico, mas também habilidades práticas, comportamentais e de adaptação a ambientes corporativos. Com mais de 652 mil estudantes de Direito matriculados no país, conforme o Censo de Educação Superior de 2024, a busca por oportunidades de estágio se intensifica, pois o estágio obrigatório é requisito para a conclusão do curso e, ao mesmo tempo, pode ser o diferencial que abre portas para uma carreira sólida.
Para entender como os escritórios de advocacia avaliam os candidatos, a revista eletrônica Consultor Jurídico entrevistou gestores de diversos escritórios renomados, incluindo Demarest, TozziniFreire, Veirano, Benício, Bichara, Eduardo Ferrão e WFaria. A partir dessas entrevistas, emergiram tendências claras sobre o perfil desejado pelos recrutadores e as práticas de captação e efetivação de estagiários.
Em primeiro plano, a excelência acadêmica deixou de ser o único critério de seleção. Os profissionais de recursos humanos ressaltam que, para se destacar, o candidato deve demonstrar vontade de aprender, curiosidade intelectual, proatividade e inteligência emocional. No Demarest, Maria Helena Bragaglia destaca que essas competências são essenciais em qualquer área de atuação, enquanto Fabiana Falcão, diretora de Pessoas e Cultura, valoriza a conexão entre teoria e prática, o trabalho ético, a colaboração e o pensamento crítico. A participação em ligas estudantis e em projetos de voluntariado também é vista como um indicativo de soft skills desenvolvidas fora da sala de aula.
A multidisciplinaridade ganha destaque no Veirano, onde Leila Zaidhaft Kampel explica que o programa Start oferece exposição a diferentes frentes do Direito. A banca mantém avaliações semestrais e comunica de forma transparente a possibilidade de efetivação em até seis meses. Quando o desempenho não atende aos critérios, a comunicação antecipada permite ao estagiário planejar sua transição antes da formatura.
Para escritórios com foco em inovação e tendências de mercado, o TozziniFreire utiliza o programa #VemSerTozziniFreire. Grasiela Basílio, gerente de Talentos, enfatiza a importância da iniciativa, do desejo de aprender e do espírito colaborativo. O objetivo é preparar o estagiário para se tornar um advogado completo, capaz de atender às demandas de um mercado em constante mudança.
No Bichara, Mariana Moreno destaca a atitude protagonista, boa comunicação e responsabilidade como atributos essenciais. A experiência prática, ainda que inicial, é valorizada, pois o estágio visa aprimorar esses conhecimentos de forma diária.
Escritórios com atuação específica em áreas de alta complexidade, como tribunais superiores, exigem habilidades mais técnicas. No Eduardo Ferrão, Lucas Campos enfatiza a capacidade de raciocínio jurídico e a excelência na escrita como requisitos inegociáveis. Já o WFaria, com foco em relações internacionais, busca estagiários com fluência em inglês e um “senso de dono”, segundo Fernanda Ortiz.
A diversidade e inclusão são pilares cada vez mais presentes nas estratégias de recrutamento. O Veirano implementou o Veirano Multiplica, um programa de vagas afirmativas para talentos negros, LGBTI+ e pessoas com deficiência. O TozziniFreire também estabelece percentuais específicos de vagas para públicos minoritários em cada novo programa. O Demarest participa do Projeto Incluir Direito, que já encaminhou 513 estudantes negros para estagiar em escritórios aderentes, elevando a representatividade de estudantes negros de menos de 1% para mais de 11% nas sociedades.
O Bichara estabelece metas de ampliar a representatividade de pessoas pretas e pardas em cargos de liderança nos próximos cinco anos, enquanto o WFaria e o Benício mantêm comitês internos de diversidade e processos baseados no mérito, rigorosamente isentos de vieses discriminatórios. O Eduardo Ferrão destaca sua parceria de estágio com a Universidade de Brasília, reforçando a importância de ambientes jurídicos ricos em perspectivas distintas para a produção de advocacia de qualidade.
Quanto à captação e efetivação, os números variam conforme o tamanho e a estratégia de cada banca. O TozziniFreire contrata cerca de 190 estagiários por ano, com uma taxa de efetivação de aproximadamente 55%. O Veirano captou 79 estagiários em 2025, com uma taxa de efetivação de 64%. O Bichara retém 20% dos 80 estagiários captados anualmente. O Demarest contratou 90 em 2025, mas não divulga a taxa de efetivação. O Benício mantém 60 estagiários, com retenção de 15%. O WFaria, com foco na cultura de “cuidar da prata da casa”, contrata de 20 a 30 estagiários por ano e tem uma taxa de retenção impressionante de 95%. O Eduardo Ferrão, com programa enxuto, admite cerca de 4 estagiários anualmente, com efetivação histórica de 20%.
Em síntese, o mercado de estágio no Direito brasileiro exige uma combinação de conhecimentos acadêmicos sólidos, habilidades práticas, comportamento proativo, inteligência emocional e uma visão multidisciplinar. A inclusão e a diversidade, agora estruturais, enriquecem o ambiente jurídico, ampliando as oportunidades para talentos de diferentes origens. Para os estudantes, a chave para se destacar está em buscar experiências que desenvolvam soft skills, participar de projetos extracurriculares e demonstrar um comprometimento genuíno com a aprendizagem contínua. Para os escritórios, a estratégia de captação e efetivação deve ser alinhada a valores de diversidade, meritocracia e desenvolvimento profissional, garantindo que os estagiários se transformem em advogados competentes, éticos e preparados para enfrentar os desafios de um mercado em constante evolução.
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