O cenário de confiança nas cortes supremas dos Estados Unidos e do Brasil reflete, em grande parte, a polarização política crescente em ambos os países. Uma pesquisa realizada pela NBC News entre 27 de fevereiro e 3 de março de 2026, com mil eleitores registrados em todo o território norte‑americano, revelou que apenas 22 % dos participantes confiam “muito ou bastante” na Suprema Corte, enquanto 38 % afirmam ter “pouca ou nenhuma” confiança. Em 2000, quando o índice era de 52 % de confiança, a queda se deu de forma abrupta ao longo das últimas duas décadas.
O mesmo padrão de declínio pode ser observado no Brasil. Dados do Datafolha de março de 2026 apontam que apenas 16 % dos brasileiros confiam “muito” no Supremo Tribunal Federal, 38 % têm “pouca” confiança e 43 % desconfiam. A comparação com outras instituições, como o Congresso e a Presidência, demonstra que a queda na confiança não é exclusiva da Suprema Corte, mas faz parte de um panorama de desconfiança institucional.
O fenômeno tem raízes na polarização política. Quando a Corte é composta por maioria conservadora, decisões que favorecem o partido republicano tendem a agravar a desconfiança entre eleitores democratas, e vice‑versa. Em 2000, a Corte bloqueou a recontagem de votos em distritos da Flórida, assegurando a vitória de George Bush sobre Al Gore. Em 2022, a decisão de revogar o precedente Roe v. Wade reduziu a confiança de democratas de 44 % para 9 %, enquanto a confiança republicana subiu de 23 % para 44 %. Decisões recentes, como a reversão da aplicação da Seção 3 da 14ª Emenda contra Donald Trump e a imunidade de ex‑presidentes em 2024, continuam a alimentar essa dinâmica.
A confiança também varia conforme a informação que os eleitores recebem. Em um estudo sobre a decisão que cancelou tarifas recíprocas de Trump, 64 % dos eleitores que estavam informados aprovaram a decisão, enquanto 32 % desaprovaram. Cerca de 16 % não tinham conhecimento suficiente para opinar. Isso evidencia que a percepção pública pode ser influenciada por cobertura midiática e por níveis de compreensão do público.
Os ministros, que ocupam cargos vitalícios, têm sido criticados por supostamente ignorar a opinião pública. O presidente da Corte, John Roberts, reconheceu em 2022 que a discordância pública não implica em questionar a legitimidade da Corte, mas também destacou que a confiança institucional é vital para a estabilidade jurídica.
Em síntese, a queda na confiança nas cortes supremas dos EUA e do Brasil é um reflexo direto da polarização política, de decisões judiciais de alto impacto e de um ambiente de desinformação. A restauração da confiança exigirá transparência, diálogo e a demonstração de que o judiciário pode ser visto como um guardião imparcial dos direitos e garantias constitucionais.
#justiça #polarização #instituições #calacaepaiva