O avanço dos modelos de linguagem tem se consolidado como um aliado silencioso na rotina do advogado, sobretudo no âmbito do processo penal. A ferramenta, que não requer descanso nem remuneração, oferece acesso rápido a uma vasta gama de conhecimentos jurídicos, mas sua eficácia depende fortemente da habilidade do usuário em formular solicitações claras e precisas.
Para profissionais habituados a pesquisas tradicionais em sites de jurisprudência e doutrina, a transição para a inteligência artificial pode parecer desafiadora. Muitos ainda utilizam os prompts como se fossem mecanismos de busca, enviando instruções vagas que geram respostas genéricas e, por vezes, incorretas. Essa prática, além de desperdiçar tempo, pode acarretar riscos reputacionais, pois a IA tende a “inventar” jurisprudência ou interpretar erroneamente dispositivos legais, fenômeno conhecido como alucinação.
O uso responsável da IA exige a adoção de técnicas específicas de engenharia de prompts. Uma estratégia eficaz consiste em definir a persona da IA, orientando-a a agir como um especialista em determinado ramo do direito. Por exemplo, ao solicitar a elaboração de uma tese de habeas corpus, o prompt deve indicar que a IA deve se posicionar como um advogado criminalista experiente em tribunais superiores, com domínio da jurisprudência recente, e solicitar apenas decisões identificadas com links de verificação.
Outra abordagem recomendada é o “Context Wrapper”, que envolve a pergunta em um contexto detalhado, como a transcrição de depoimentos ou laudos periciais. Ao restringir a IA ao material fornecido, minimiza-se a possibilidade de preenchimento de lacunas e de geração de informações fictícias.
Para tarefas que exigem cálculos complexos ou análises passo a passo, a técnica de Cadeia de Pensamento (CoT) força a IA a expor seu raciocínio em cada etapa, permitindo ao profissional identificar falhas lógicas ou normativas antes de incorporar o resultado ao trabalho final.
Além disso, é prudente estabelecer restrições explícitas no prompt, como limite de palavras, proibição de citações doutrinárias ou de linguagem informal. Essas instruções negativas reduzem a prolixidade e garantem que o produto final atenda aos padrões técnicos exigidos pelos tribunais.
Em situações em que a IA demonstra divergência ou alucinação, a prática recomendada é iniciar uma nova sessão. Repetir a mesma conversa pode consolidar respostas imprecisas e tornar mais difícil a correção do erro.
Assim, a inteligência artificial deixa de ser um mero instrumento de automação e se torna um recurso estratégico que, quando manejado com competência, amplia a produtividade e a qualidade do trabalho jurídico. A chave está na formação contínua dos profissionais, que devem aprender a dominar a arte dos prompts e a aplicar o mesmo rigor crítico que utilizam na análise de textos legais.
Em conclusão, a IA não substitui a expertise jurídica, mas complementa o trabalho do advogado quando empregada com responsabilidade e competência. A responsabilidade final pela precisão e pela ética do conteúdo permanece nas mãos do profissional, que deve sempre submeter a produção gerada a um escrutínio rigoroso.
#inteligenciaartificial #jurisprudência #processopenal #calacaepaiva